quarta-feira, junho 15, 2011

  


O arquivista não pode simplesmente garantir o acesso a qualquer documento, pois existem fatos que não podem ser simplesmente mostrados, são confidenciais, guardam uma história, preservam uma memória que às vezes é impedida de vir à tona...!

Isso gera uma enorme pressão psicológica, não somente por sua parte, mas também pela das pessoas interessadas em remexer no passado. Existe por trás uma questão política muito forte...!

                                   

O filme Uma cidade sem passado mostra bem esta realidade. O chato é que o mesmo foi produzido na Alemanha, na década de 90, o que dificulta o acesso. Não é fácil encontrá-lo para baixar da internet nem mesmo em alemão, quem dirá legendado em português e muito menos dublado. Mas para quem se interessar...

Baseado em fatos reais, conta a história da jovem estudante alemã Sonia Rosenberger (Lena Stolze), que após ganhar um concurso de redações recebe uma proposta para participar de uma nova competição e para isso, escolhe a temática: minha cidade natal durante o III Reich.

Ela recorre primeiramente à memória coletiva, transmitida oralmente por aqueles que viveram no dado período, porém isto não é suficiente. Então ela dá os primeiros passos em busca de informações sobre o passado, visitando instituições de pesquisa. Apesar da dedicação, as Informações obtidas além de escassas, não oferecem os subsídios necessários para o desenvolvimento do projeto. As pessoas envolvidas se limitam a dar informações que poderiam contribuir, alegando não lembrar o que acontecia na cidade.

Relembrar um passado marcado por situações traumatizantes é o mesmo que remexer em uma ferida que ainda não cicatrizou completamente. Sendo assim, o silêncio surge como uma alternativa eficaz para o esquecimento de memórias desconfortáveis ou comprometedoras.

Até mesmo as primeiras instituições de pesquisa visitadas fecharam suas portas para a estudante. As justificativas para a negação do acesso às fontes eram variadas. Por exemplo, o diretor do arquivo e biblioteca da Igreja alegou que lá só havia obras teológicas, portanto, de pouco valor informativo para os interesses da pesquisadora. Já a direção do jornal Pfilzinger Morgen, que havia permitido o acesso às fontes por um momento, justificou a proibição pelo fato dos documentos estarem em processo de micro-filmagem.

O trabalho dela divide-se em dois momentos: o primeiro corresponde à competição para a qual a pesquisadora foi convidada a participar e o segundo, já com o prazo do concurso expirado é quando a protagonista faz da pesquisa uma causa social. Cabe salientar que a princípio, o trabalho não tinha como foco a memória vergonhosa a qual todos na cidade preferiam ocultar. Inicialmente o objetivo era mostrar “a verdade” e como a cidade resistiu ao nazismo.

Os moradores de Pfilzing não compactuam com as ideias da pesquisadora, que passa a ser hostilizada pelos compatriotas sob acusações de ser espiã, comunista e judia.

Apesar das adversidades Sonia não desiste de dar encaminhamento do seu trabalho e para isso, em várias ocasiões precisa processar a própria cidade para ter acesso às fontes que necessitava para a elaboração do mesmo. De posse dos documentos Sonia finalmente confirma suas suspeitas, mas antes ela precisou até mesmo fazer com que o prazo deixasse de ser 50 anos e passasse para 30, como era há um tempo e enfrentar as desculpas de empréstimo e até extravio.

Os motivos que levavam a população e as instituições sociais a tentar manter o passado na escuridão eram vários, desde a existência de campo de concentração na cidade a experimentos com seres humanos e até o envolvimento de dois padres (que ainda estavam vivos) na prisão de um judeu inocente. Após a revelação dos fatos e o reconhecimento da imprensa internacional pelo trabalho de revisão da história recente, Sonia passa da condição de vilã a heroína por ter mostrado a população de Pfilzing “a verdade que estava escondida”.
É interessante que nem sobre ameaças ela decidiu se calar. O medo estava evidente, uma vez que isto colocava em risco não só a sua vida, mas também a de suas filhas Sarah e Rebecca, seu marido (professor de física da época do colégio), seus pais (que sempre a apoiaram, a ajudaram a lidar com as pressões e a investigar), seus irmos e até mesmo sua avó, tão orgulhosa da neta. Ela é perseguida, jogam bombas em seu domicílio, chegam até mesmo a bater nela, mas ela não se detém diante de nada disso.

É uma pena que ela tenha um final tão trágico, agredindo seus pais e se isolando. Ou seja, estava à beira do abismo e da loucura.

: )

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