quinta-feira, junho 02, 2011

Balada
das Arquivistas




Oh jovens anjos cativos
Que as asas vos
machucais
Nos armários dos arquivos!
Delicadas funcionárias
Designadas por padrões

Prisioneiras honorárias
Da mais
fria
das prisões
É
triste
ver-vos, suaves
Entre
monstros impassíveis

Trancadas a sete chaves:
Oh, puras e imarcescíveis!
Dizer que vós, bem-amadas
Conservai-vos impolutas
Mesmo fazendo a juntada
De processos e minutas!
Não se
amargam vossas bocas

De índices e prefixos
Nem lembram os olhos das
loucas
Vossos doces olhos fixos.
Curvai-vos para colossos
Hollerith, de aço hostil
Como se fora ante moços
Numa pavana gentil.
Antes não classificásseis
Os maços pelos assuntos
Criando a luta de classes
Num mundo de anseios juntos!
Enfermeiras de ambições
Conheceis,
mudas, a nu
O
lixo
das promoções
E das exonerações
A bem do serviço público.
Ó Florences Nightingale
De arquivos horizontais:
Com que zelo alimentais
Esses eunucos
letais

Que se abrem com chave yale!
Vossa linda juventude
Clama de vós,
bem-amadas!
No entanto, viveis
cercadas

De coisas padronizadas

Sem sexo e sem saúde...
Ah, ver-vos em primavera
Sobre papéis de ocasião
Na
melancólica espera

De uma eterna certidão!
 
Ah, saber que em vós existe
 
O amor, a ternura, a prece
 
E saber que isso fenece
 
Num arquivo feio e triste!
 
Deixai-me carpir, crianças
 
A vossa imensa desdita
 
Prendestes as esperanças
 
Numa
gaiola maldita. 
Do
fundo do meu silêncio 
Eu vos incito a lutardes
 
Contra o prefixo que vence
 
Os anjos
acorrentados 
E ir passear pelas tardes
 
De braço com os namorados.


in Antologia Poética
in Poesia completa e prosa: "O encontro do cotidiano"

Vinícius de Moraes fala nesta poesia supostamente sobre uma de suas namoradas, uma arquivista que trabalhava no Itamaraty e o acompanhava na bebedeira de cachaça após o expediente.



Ele mostra como as arquivistas estão rodeadas de malefícios para a saúde. É tanta pressão e tantas responsabilidades... Que a vida pessoal às vezes (nem sempre, claro!) acaba se confundindo com a profissional...! Também é possível perceber a visão estereotipada que ainda nos cerca...!










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